Os altos e baixos da indústria fonográfica: porquê o mundo da música voltou a gerar resultados.

Comparando o passado com os dias atuais é até engraçado pensar que o rádio foi uma criação revolucionária de sua época e que por muitos anos foi o único meio capaz de fazer com que as pessoas ouvissem seus artistas favoritos como Noel Rosa e Carmem Miranda, no conforto de suas casas sem que precisassem ir a shows ou bailes onde essas músicas tocavam.

O pessoal daquela época nem imaginava que anos mais tarde seria possível “colocar” um artista ou uma banda inteira dentro de um único lugar, nos discos de vinil, mídia que deu início a uma nova era na indústria fonográfica e que ajudou milhares de músicos a se tornarem estrelas mundiais.

De lá para cá muita coisa aconteceu, as transformações das tecnologias na área da música nos proporcionaram ouvir e gravar músicas em fita k7, melhoraram a qualidade sonora dos CD`s e nos permitiram fazer o download das músicas em formato MP3. Tá certo que parando para pensar nos dias de hoje, essas mídias estão ficando cada vez mais esquecidas depois da aparição dos canais de streaming, mas convenhamos que esse é um processo natural da evolução.

O curioso é que essas mudanças não estão só relacionadas aos formatos de produção e do consumo da música, isso também mexeu com a relação entre empresários, artistas e suas gravadoras. Nas décadas de 40 até 80 ser músico significava assinatura de contratos milionários, altos cachês, ser idolatrado como um deus pela sociedade, ter à sua disposição limousines, festas, milhares de unidades vendidas, prestígio e muito, mas muito glamour.

Durante todo esse período, assim como os artistas, a indústria da música também viveu momentos de fartura financeira, o que fez com que as gravadoras aumentassem suas coleções de parede com premiações de discos de ouro, platina e diamante com os recordes de vendas de seus contratados. Foi nessa época que as majors entenderam que quanto mais investissem mais retorno teriam, mas como nem tudo é perfeito no final dos anos 90 era criado o sistema que deixaria indústria da música em apuros, o famoso Napster, que em pouco tempo se espalhou pela rede e popularizou o download e a distribuição das músicas em formato “MP3” de forma completamente ilegal.

Essa novidade trouxe o início desenfreado da pirataria, e a partir daí, nenhum centavo dos direitos autorais e de reprodução eram destinados aos profissionais envolvidos. Essa distribuição ilegal fez o mercado perder uma porcentagem considerável em receita e mergulhar numa crise inesperada que durou anos, porque se ouvia cada vez mais música, mas de forma totalmente prejudicial ao mercado.

A luz no fim do túnel

Durante anos de tentativas frustradas e muitas brigas, que levaram a indústria a pensar que tudo estava perdido, eis que surgem os revolucionários canais de streaming. Spotify, Deezer, Apple Music, Tidal e muitos outros deles permitiram aos usuários o acesso a um acervo que tem milhões de artistas e ritmos diferentes que podem ser ouvidos 24 horas por dias, sete dias por semana de forma totalmente legal e em qualquer lugar que estejam. Podemos afirmar que nunca se ouviu tanta música como se ouve hoje na era do streaming.

Para o mercado, que passou quase uma década e meia apertando os cintos, foi como respirar aliviado por finalmente ter à sua disposição um sistema onde além de reproduzir música de seus artistas ainda gerava receita todas as vezes que era dado o play em um de seus fonogramas. As melhorias foram tantas que a Pró-Música Brasil mostrou em uma de suas pesquisas realizadas em 2016, que o crescimento do faturamento nacional foi 52% maior se comparado com o ano anterior e que essas plataformas são até 3 vezes mais rentáveis que as mídias físicas.

Como consequência dessa “legalização”, aconteceu a redução da pirataria (ponto para a indústria fonográfica). Fato comprovado por um estudo feito durante dois anos, na Suécia (país de origem do Spotify), que indicou a diminuição da pirataria em 25% . Isso porque uma vez que as pessoas podem ouvir suas músicas preferidas online ou fazerem o download no aplicativo para ouvirem off-line, não têm mais motivos para comprarem ou “queimarem” um CD pirata, até porque com tanta tecnologia quem ainda escuta CD hoje em dia, não é mesmo?

Essa nova forma de consumo não fez a felicidade apenas dos magnatas da música, mas serviu também para abrir caminho para a entrada de artistas independentes, que podem subir suas músicas e compartilhar seus trabalhos com milhões de usuários.

Todos esses fatos mostram que a música voltou a dar resultado e que essa maré de ilegalidades teve um grande recuo, pelo menos no mundo da música, onde dados da Associação das Gravadoras dos Estados Unidos (RIAA) mostram que os canais de streaming tiveram um faturamento de US$ 1,87 bilhão.

Nem tudo são flores

Levou um bom tempo para que a indústria pudesse sonhar com uma chance concreta de ter um modelo de negócio viável e lucrativo na era digital, mas tantos avanços fizeram o mercado reavaliar se essas tecnologias realmente seriam benéficas para a saúde financeira da indústria fonográfica, que se por um lado viram o aumento das receitas pela utilização do streaming, por outro sentiram a redução de 8,1% da receita mundial de vendas dos formatos físicos, que ainda era a mídia que gerava maior lucro com suas vendas.

Outras características que continuam causando incômodos nos profissionais do meio são os pagamentos de royalties considerados extremamente baixos nas plataformas digitais. O desconforto foi tanto que teve até artista exigindo a retirada das suas música da plataforma alegando que isto estava prejudicando a venda de seus álbuns físicos, como o caso da cantora Taylor Swift que posteriormente voltou para o mundo digital.

A verdade é que não podemos prever o que o futuro reserva para o mundo da música, o caminho ainda é longo e com curvas bem sinuosas. Tudo o que sabemos é que com o passar dos anos ela se transformou e mostra sinais que mudará ainda mais com a intervenção de tecnologias como a inteligência artificial, trazendo ainda mais surpresas agradáveis e outras nem tanto. O que importa é que melhorias estão acontecendo e trazendo resultados, talvez em um futuro próximo os canais de streaming consigam chegar a um acordo financeiro que agrade produtores, artistas e suas gravadoras e a harmonia volte a reinar no (ainda rentável) mundo da música.

Por Thayná de Souza Santos

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